Ah, Romina, já não me lembro mais de você. Seus cabelos e seus olhos já perderam as cores em minha memória. Não a culpo por nada, é claro, não me leve a mal. Você fez o que deveria ter sido feito, mesmo.
Eu simplesmente preferi renegar todo esse fado com intenção de eternidade. A verdade é que sou inconformado com aquilo que chamam de "predestinação". Eu juro que não aceito essas coisas tão exatas, infalíveis. Desconfio de tudo.
Você partiu e eu sofri. E pronto e acabou. Agora a tenho em meu rincão mais profundo, na região governada pelo olvido. E assim você segue a se diluir em meu sangue, até não ter mais gosto.
Olha, Romina, não me creia vingativo ou atroz (devo ter exagerado), mas tudo aqui é verdade, cada vírgula e cada ponto. Quantas noites de insônia, deitado na cama, a mirar o teto do quarto, num escuro imprestável, eu lhe via sorrindo! Mas agora eu durmo tranquilo; um sono bem pesado. É tudo sossego após eu ter eclodido do ovo claustrofóbico em que me encarcerei por uma temporada infernal.
Hoje o mundo me pertence. Sou o rei daqui. É fevereiro e o carnaval já vem. E sigo me depurando do que ainda restou, do que ainda teima em existir.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Lembrança de Romina
Sempre pensei que estava tudo certo. Rejeitei a ordem e a parcimônia, ainda que não vivesse cego no exagero. Engraçado, mas passei a pensar toda a minha vida a partir de um fim. Não como Brás Cubas, quando fantasma, mas após o término de um relacionamento. Espero, com toda sinceridade, não cair num tremendo clichê, enfadonho até para uma novela das nove.
O que é certo, e não há dúvida, é que sou a própria contradição. "A contradição encarnada!", é o que eu diria de mim mesmo, numa mesa de bar, gesticulando em minha eloquência embriagada. Pior que agora me vejo como um idiota. Caricato! Eu não cria nos poucos que me alertavam. Mas agora quero me despir: nu, para depois vestir outras roupas mais cômodas. Ou será que já começo a exagerar num dramalhão imbecil?
Estou sereno, apesar de um vazio estranho. Quedei-me num hiato de indecisão. Ai, senhores, faz-se necessário me expor assim numa catarse? Sequer vontade de abrir uma garrafa de vinho me assoma nesta noite intranquila. É certo que eu poderia estar numa situação até pior, aos prantos, esbravejando infâmias! Mas ela tinha razão, no fundo. E eu também em minha superfície. Acontece que me perdi em minhas profundezas. Deve estar lá o fio de sensatez, como eu podia ter sido, e não fui. Não fui buscar-me sequer.
Gostaria de um despertar trevisaniano e deixar que a carne me conduza noite à fora. Queria aguçar meus sentidos num gozo interminável e inconsequente. Infelizmente alguma coisa em mim não me permite: puxaria-me de volta à correição. Eis aí a minha desdita. Fico de lá-pra-cá; indo e vindo; entre o silêncio e o escândalo; discrição e estupor. E o que me sobra, no fim, é o sono e a promessa de um outro dia.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
Olhando a cidade
Abri a janela para sentir o cheiro da noite fria. À frente, uma névoa púrpura a cobrir o pico do Itacolomy. As luzes das casas do bairro que fica aopé da montanha trmulam sonolentas. Minhas vista cansada reclama um sono que ainda não quis vir.
Medito qualquer confusão que queira me assolar. Desta vez são muitas,e todas me assomam num turbilhão. Um desassossego tedioso que me dói a cabeça.
Ainda me resta um gostinho de caféna boca. Espero criar coragem para escovar os dentes antes de dormir - ah, como queria ser metódico! Minha vida é um eterno improviso. Talvez eu devesse estar cursando Artes Cênicas. Não sei. Queria sossego em minha alma. Se ao menos tivesse uma garrafa de vinho aqui. Beberia toda a garrafa e logo o sono me arremataria num bom descanso.
Ando insatisfeito e ligeiramente frustrado. Sou sempre assim? Fantasio demais? Queria por fim a tudo e recomeçar. Recomeçar-me a mim. Exagero de primeira pessoa. Mas não o consigo. Nem mesmo este texto será refeito.
Medito qualquer confusão que queira me assolar. Desta vez são muitas,e todas me assomam num turbilhão. Um desassossego tedioso que me dói a cabeça.
Ainda me resta um gostinho de caféna boca. Espero criar coragem para escovar os dentes antes de dormir - ah, como queria ser metódico! Minha vida é um eterno improviso. Talvez eu devesse estar cursando Artes Cênicas. Não sei. Queria sossego em minha alma. Se ao menos tivesse uma garrafa de vinho aqui. Beberia toda a garrafa e logo o sono me arremataria num bom descanso.
Ando insatisfeito e ligeiramente frustrado. Sou sempre assim? Fantasio demais? Queria por fim a tudo e recomeçar. Recomeçar-me a mim. Exagero de primeira pessoa. Mas não o consigo. Nem mesmo este texto será refeito.
sábado, 2 de abril de 2011
domingo, 27 de março de 2011
Retorno às montanhas
Agora as montanhas me cercam comedidas, com receio e com um certo carinho. Talvez arrependidas. Chorosas.
Tratam-me com muito zelo. Chovem um choro fino, mas, à tardinha, um toró soluçante revela um insuportável peso na consciência.
Eu não sei se acredito nisso tudo.
Eu sei que tudo é adoravelmente estranho e novo. Devo estar gostando. E ainda tem o frio fora da época.
Algo sem muita sinceriade. Espero que seja eu.
Tratam-me com muito zelo. Chovem um choro fino, mas, à tardinha, um toró soluçante revela um insuportável peso na consciência.
Eu não sei se acredito nisso tudo.
Eu sei que tudo é adoravelmente estranho e novo. Devo estar gostando. E ainda tem o frio fora da época.
Algo sem muita sinceriade. Espero que seja eu.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
De bar em bar
Chegou esbaforido empunhando uma peixeira. Era um desses tais "cabra macho", lá de cima, de Sergipe. Mais ainda: do sertão, na beira do Velho Chico.
Parou a batucada, cessou o ronco da cuíca e a mulatada deu um verdadeiro breque e se danaram a espernear.
Já entrou rodando feito um cangaceiro azucrinado. Parecia aquele tal do cinema.
Rodou e rodou. Rodou tanto que caiu no chão. Mas logo se levantou. Perguntou por "ele". "Cadê ele?" O pessoal ficou sem saber o que falar. "Cadê?", e eu sei lá! "Cadê aquele cabra safado? Aquele fio de uma gata-que-ronca!?" Piorou, ninguém deu um passo à frente -ninguém sequer piscou. "Apareça, seu peste!"
Uma tensão danada. Viam-se alguns olhos lacrimosos, femininos, diga-se.
Tão triste ver um samba murchar. E quão terrível é ver um cangaceiro doido e bêbado ameaçando alguém. Ave-Maria! É hoje o dia...
O virgulino embriagado olhou nos olhos da negada da banda, nos das crioulas, nos de todo mundo. De repente, a outra mão, a que estava abanando, foi à cabeça. Coçou-se, com uma cara de besta que dava dó. "Errei o bar..."
O do pandeiro até tentou voltar a tocar, mas não conseguiamanter o ritmo. "Tremedeira danada, rapaz".
Parou a batucada, cessou o ronco da cuíca e a mulatada deu um verdadeiro breque e se danaram a espernear.
Já entrou rodando feito um cangaceiro azucrinado. Parecia aquele tal do cinema.
Rodou e rodou. Rodou tanto que caiu no chão. Mas logo se levantou. Perguntou por "ele". "Cadê ele?" O pessoal ficou sem saber o que falar. "Cadê?", e eu sei lá! "Cadê aquele cabra safado? Aquele fio de uma gata-que-ronca!?" Piorou, ninguém deu um passo à frente -ninguém sequer piscou. "Apareça, seu peste!"
Uma tensão danada. Viam-se alguns olhos lacrimosos, femininos, diga-se.
Tão triste ver um samba murchar. E quão terrível é ver um cangaceiro doido e bêbado ameaçando alguém. Ave-Maria! É hoje o dia...
O virgulino embriagado olhou nos olhos da negada da banda, nos das crioulas, nos de todo mundo. De repente, a outra mão, a que estava abanando, foi à cabeça. Coçou-se, com uma cara de besta que dava dó. "Errei o bar..."
O do pandeiro até tentou voltar a tocar, mas não conseguiamanter o ritmo. "Tremedeira danada, rapaz".
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