A mesma noite, a mesma garrafa de vinho, frente à mesma tela de computador, a fazer a mesma coisa de sempre. Será que existe poesia nessa dita pós-modernidade apoética? O que se quer dizer com isto? Alguém já disse isto? Ele realmente não sabe. Nem ao menos intenta pensar sobre essas frases vomitadas.
Já pensou ser um grande escritor? Ele já. Tanto o fez que vive bebendo café ou vinho e se imagina em paisagens literárias, coitado. Agora, você, leitor, deve estar pensando "mas que narrador filho de uma puta!", certo? Eu também penso o mesmo. Mas tudo é verdade. Ora, um sujeitinho qualquer, que bebe uma garrafa de vinho caro - o chamado belo rebento da classe média sonhadora, se é que alguem diz isso também, além deste narrador filho-de-uma-pobre-mulher-ultrajada, segundo o mesmo - e que fica de conversas banais no mesenger e que pretende virar escritor... ah, doce ilusão! De tão doce lhe fez cair os dentes (terrível isso, nunca escreva uma merda desta). Tamanha pretensão! Maldito século de perspectivas frustradas.
O pseudo-escritor-sonhador, e agora bêbado, não sabe mais o que rabiscar. Devo cutucá-lo. Provocá-lo. E o que faz com esse livro do Hemingway fechado? quer sê-lo? Não pode, meu querido. Escreva suas estorinhas nesse seu blog, e nada mais.
Neste século (de novo essa repetição, essa tragédia do tempo), qualquer um pode ser escritor. Cria-se um blog e se escreve poesia, conto, besteira e merda ao bel-prazer. Mas há quem se dê bem, dizem, você me disse.
O vinho acabou, escritor? Apenas até aqui consegue escrever? Muda a música e vai na geladeira encher o copo novamente, assassine o vinho nesse copo americano mais uma vez! E agora pense numa tragédia. Refaça a Grécia, por menos que a conheça. Esse é um ponto trágico, escritor. Você sempre soube que os grandes leram bem os gregos. E você? Você nem conseguiu ler todos os trabalhos de Hércules por inteiro.
E a musa, tem? Não. Pobre... Chega de troças, não quero ver lágrimas vertidas. Mas nem ao menos uma morena para se exaltar... Vá ver um filme e se encante por uma dessas frncesas de cabelo curto, bem negro. Escreva uma homenagem a ela, meu caro. Aliás, invente-a, assim como o faz para si próprio.
Quem nos dera uma pequena francesa agora, hã? Você nem em uma morena daqui consegue pensar. É decadente. Lamentável..
Cansei de você, escritor. Cansei de dizê-lo.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Subte
Entrou no metrô e teve sorte de encontrar um espaço vago no banco vermelho. Mais que sorte, talvez um milagre. Nada mais desagradável que pegar o metrô às 18 horas - aliás, há coisa pior: fazê-lo todos os dias. Ao menos houve o milagre de hoje, terça-feira de calor infernal.
Ela sentou entre um senhor gordo e barbudo e uma velhinha de óculos redondos. Todos calados - e mais ainda ela. Estava cansada. Sentou-se, na verdade, com um olhar melancólico - ou indiferente, aqueles olhos não foram tão claros, ainda que bem verdes. E apoiava seu queixo na palma da mão com os dedos subindo à bochecha. Apenas seus olhos se moviam, o resto era estático. Aliás, seu corpo inflava ao respirar, mas era quase imperceptível, apenas um olhar insistente para percebê-lo.
De repente um sorriso. Fechou os olhos e passou a mão desde a testa até os cabelos, arrumando-os. Que boa lembrança teria sido aquela?
As possibilidades são infinitas.... Ela desceu em Angel Gallardo.
Ela sentou entre um senhor gordo e barbudo e uma velhinha de óculos redondos. Todos calados - e mais ainda ela. Estava cansada. Sentou-se, na verdade, com um olhar melancólico - ou indiferente, aqueles olhos não foram tão claros, ainda que bem verdes. E apoiava seu queixo na palma da mão com os dedos subindo à bochecha. Apenas seus olhos se moviam, o resto era estático. Aliás, seu corpo inflava ao respirar, mas era quase imperceptível, apenas um olhar insistente para percebê-lo.
De repente um sorriso. Fechou os olhos e passou a mão desde a testa até os cabelos, arrumando-os. Que boa lembrança teria sido aquela?
As possibilidades são infinitas.... Ela desceu em Angel Gallardo.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Diario porteño 05/10/10
Anoiteceu em minha solidão portenha. E essa noite só acontece às 20:30 por aqui. Melhor, então, pegar um táxi rumo a calle Lerma, 164, esquina com Levallaje.
O taxista segue pela avenida Córdoba, mas antes põe um cd azul no som do carro. Melhor trilha sonora impossível: Piazzola. Ele avança até a música que eu ansioso aguardava: Libertango. Senti-me como num filme. Os carros naquele trânsito caótico e o bandoneón de piazzola assoprndo um regresso melancólico. Faltou-me, apenas, que fosse esse um filme em preto e branco, un cigarrillo e uma solidão de fato, mas foi ótimo.
Amanhã continuo a exploração.
O taxista segue pela avenida Córdoba, mas antes põe um cd azul no som do carro. Melhor trilha sonora impossível: Piazzola. Ele avança até a música que eu ansioso aguardava: Libertango. Senti-me como num filme. Os carros naquele trânsito caótico e o bandoneón de piazzola assoprndo um regresso melancólico. Faltou-me, apenas, que fosse esse um filme em preto e branco, un cigarrillo e uma solidão de fato, mas foi ótimo.
Amanhã continuo a exploração.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Diario porteño
Ah! Buenos Aires, querido! No sé como digitar el exclame "de cabeça para baixo"... pero mi pasion por la ciudad és mayor que cualquier cosa digital. Hoy conoci la bombonera. Debe ser terrible para un equipo visitante jugar allá. Después fui al el caminito. Lindo. Tango. Parrilla. Locos mozos hablando en portuñol porteño y hablando de mi corinthians y de botafogo, de mi hermano y mi padre.
Ahora un vino, malbec de mendonza. $11 pesos! R$5,00! É mole?
Ahora un vino, malbec de mendonza. $11 pesos! R$5,00! É mole?
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
"Eu vou tirar você desse lugar..."
Cadê você, Odair? Tire-me dessa prostituição acadêmica!
Tô triste... e quero a minha mãe.
Tô triste... e quero a minha mãe.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Dona Geralda
Lá vinha Dona Geralda nos fins de tarde quente à porta de casa. Carapinha branca, oclinhos grossos e o sorriso bonachão. Pisa o chão com um cuidado gentil, de avó doce. Vem falando de Deus e da Mãe-morena - que eu não sabia que era a Aparecida. Convidou-me para entrar.
Mostrou-me o quarto com as inúmeras fotografias dos entes queridos: marido, filha, pai, sobrinho, neto, sobrinho-neto, santa, santo etc.
Foi buscar a água-benta, benzida, a propósito, pelo padre Zezé, famoso aqui, na Vila Rica - e que eu também não sabia.Sorri. A santa água era para a minha fajuta conjutivite, que era, em verdade, irritação qualquer, mas que um amigo bobo me assustou enfatisando a vermelhidão. Ela resolveu misturar a água do padre Zezé com a do outro padre que não me lembro o nome. Disse que ia ficar uma mistura forte.
Dona Geralda é feliz. Ama o amor e me disse que também a mim. Que sensação leve e bonita é a de receber um "ah, eu amo você. Você é um menino bom!" com toda a alegria espontânea do sangue, por mais que não seja lá muito bom ou coisa assim. E depois o abraço. Um abraço materno. Aliás, mais que materno: de avó, bem docinho.
Infelizmente rejeitei o café - a contragosto, sim. Disse-lhe que esperava a entrega de uns medicamentos, que já havia pedido. Ela fez uma carinha de frustração, mas daquelas de quem entende a situação, mesmo sem o querer.
Acompanhou-me até a sua porta. Aos setenta e sete anos, as pernas teimam em querer fazer força, enganam o costume das décadas de se pisar forte o chão e tudo o que tiver de ser pisado. A porta verde se abriu num clarão de tarde. Desci a ladeira, mas antes um "Deus lhe acompanhe" e uma promessa de bênção com arruda para o domingo.
Dona Geralda acompanhou com o olhar o rapaz de um olho fechado.
Mostrou-me o quarto com as inúmeras fotografias dos entes queridos: marido, filha, pai, sobrinho, neto, sobrinho-neto, santa, santo etc.
Foi buscar a água-benta, benzida, a propósito, pelo padre Zezé, famoso aqui, na Vila Rica - e que eu também não sabia.Sorri. A santa água era para a minha fajuta conjutivite, que era, em verdade, irritação qualquer, mas que um amigo bobo me assustou enfatisando a vermelhidão. Ela resolveu misturar a água do padre Zezé com a do outro padre que não me lembro o nome. Disse que ia ficar uma mistura forte.
Dona Geralda é feliz. Ama o amor e me disse que também a mim. Que sensação leve e bonita é a de receber um "ah, eu amo você. Você é um menino bom!" com toda a alegria espontânea do sangue, por mais que não seja lá muito bom ou coisa assim. E depois o abraço. Um abraço materno. Aliás, mais que materno: de avó, bem docinho.
Infelizmente rejeitei o café - a contragosto, sim. Disse-lhe que esperava a entrega de uns medicamentos, que já havia pedido. Ela fez uma carinha de frustração, mas daquelas de quem entende a situação, mesmo sem o querer.
Acompanhou-me até a sua porta. Aos setenta e sete anos, as pernas teimam em querer fazer força, enganam o costume das décadas de se pisar forte o chão e tudo o que tiver de ser pisado. A porta verde se abriu num clarão de tarde. Desci a ladeira, mas antes um "Deus lhe acompanhe" e uma promessa de bênção com arruda para o domingo.
Dona Geralda acompanhou com o olhar o rapaz de um olho fechado.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Desabafo vegetal
Um dia fiquei puto e fui me esconder dentro do tronco de uma árvore. Vi passarinho construir ninho e namorados riscarem seus nomes dentro de um coração. Houve quem desse uma mijada e acertasse meu pé. "Mas que merda!", gritei.
Fiquei lá durante meses. Tornei-me amigo dos cupins e inimigo de quem podava a pobre da árvore.
Aconteceu que um dia uma nêga teve a mesma ideia minha - que já não era bem minha, mas nossa, minha e dela. Foi bacana. Relacionamo-nos muito bem. Tivemos uma semente que nasceu frondosa, num canto perto dali. Nessa altura eu já estava bem ramificado e ela vinha trepada a mim. Pense! Sugando toda a minha energia.
Um dia, veio um sacana e me cortou dali. Hoje sou estofado e fico sufocado por uma bunda gorda cheia de gases.
Saudade de mata.
Fiquei lá durante meses. Tornei-me amigo dos cupins e inimigo de quem podava a pobre da árvore.
Aconteceu que um dia uma nêga teve a mesma ideia minha - que já não era bem minha, mas nossa, minha e dela. Foi bacana. Relacionamo-nos muito bem. Tivemos uma semente que nasceu frondosa, num canto perto dali. Nessa altura eu já estava bem ramificado e ela vinha trepada a mim. Pense! Sugando toda a minha energia.
Um dia, veio um sacana e me cortou dali. Hoje sou estofado e fico sufocado por uma bunda gorda cheia de gases.
Saudade de mata.
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