Quanto daquel'água
me resta ainda ao corpo?
Quanto daquelas vozes
ainda falo?
Quanto deles
ainda
sou?
Que sou?
Que falo?
E que turva água
é esta que me enxarca
com o que não sou?
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
O amor, o desamor e as duas maritacas tagarelas
Como é belo o amor (ao menos até a decepção que um termina sentindo por outrem)!
Essa história aconteceu bem no meio de uma ladeira: um casal que ia à frente, aos beijos e apertos, e, logo atrás, duas maritacas cantantes. E foram subindo e subindo o morro. Como eram lindos e feliz!
Ela sorria tanto! Já ele era mais contido, aproveitava o momento calmamente, confabulando um rala-e-rola para depois, acredito. Já as maritacas davam suas risadinhas de ave trepadeira. Notava-se, é certo, um ligeiro desconforto do rapaz perante as aves que os seguiam e ainda mais pelas gargalhadas e fuxicos. Por isso se aconselham não criar laços muito íntimos com esse tipo de ser.
Acontece que ele não era bem o dito "macho oficial" da moçoila - perdoem-me o tom machista. Ele era um rapazote qualquer, um desses cabeludos que andavam pela baixada nas noites secas. Era isso, mesmo. O digno macho estava... em sua rede (lendo, dormindo, ou qualquer outro gerúndio de se conjugar no ambiente doméstico).
Pois então que, no momento crucial desse conto da carochinha, passou voando um passarinho (o bem-te-vi seria a ave mais adequada para essa história, com seu papo amarelo e sua cara de malandro). O tal passarinho, acompanhado de sua amiga coreana, foi motivo da mudança de tom das maritacas - que começaram um escândalo maior, diga-se -; e que, por sua vez, fez o casal virar os rostos e, finalmente, fez enrubrecer o rosto da moça.
O bem-te-vi viu mas não ficou esperneando a sua velha ladainha. Preferiu mudar de discurso. Resolveu, em homenagem à amiga que o seguia, falar em coreano, língua simples, sim, mas que por estes trópicos se sente uma certa fadiga em compreendê-la.
Já o namorado-namorado-mesmo não estava vendo nada, coitado. Estava feliz e assim persistirá, até que o bem-te-vi fofoque este lero-lero besta. O namorado-namorado-mesmo acabou recebendo a mocinha, sorrindo com os dentes amarelados.
Essa história aconteceu bem no meio de uma ladeira: um casal que ia à frente, aos beijos e apertos, e, logo atrás, duas maritacas cantantes. E foram subindo e subindo o morro. Como eram lindos e feliz!
Ela sorria tanto! Já ele era mais contido, aproveitava o momento calmamente, confabulando um rala-e-rola para depois, acredito. Já as maritacas davam suas risadinhas de ave trepadeira. Notava-se, é certo, um ligeiro desconforto do rapaz perante as aves que os seguiam e ainda mais pelas gargalhadas e fuxicos. Por isso se aconselham não criar laços muito íntimos com esse tipo de ser.
Acontece que ele não era bem o dito "macho oficial" da moçoila - perdoem-me o tom machista. Ele era um rapazote qualquer, um desses cabeludos que andavam pela baixada nas noites secas. Era isso, mesmo. O digno macho estava... em sua rede (lendo, dormindo, ou qualquer outro gerúndio de se conjugar no ambiente doméstico).
Pois então que, no momento crucial desse conto da carochinha, passou voando um passarinho (o bem-te-vi seria a ave mais adequada para essa história, com seu papo amarelo e sua cara de malandro). O tal passarinho, acompanhado de sua amiga coreana, foi motivo da mudança de tom das maritacas - que começaram um escândalo maior, diga-se -; e que, por sua vez, fez o casal virar os rostos e, finalmente, fez enrubrecer o rosto da moça.
O bem-te-vi viu mas não ficou esperneando a sua velha ladainha. Preferiu mudar de discurso. Resolveu, em homenagem à amiga que o seguia, falar em coreano, língua simples, sim, mas que por estes trópicos se sente uma certa fadiga em compreendê-la.
Já o namorado-namorado-mesmo não estava vendo nada, coitado. Estava feliz e assim persistirá, até que o bem-te-vi fofoque este lero-lero besta. O namorado-namorado-mesmo acabou recebendo a mocinha, sorrindo com os dentes amarelados.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Romina III
Agora, sim, lembro-me daquele final de semana na casa de praia. Foi só botar o disco do Drexler que a maquinaria enferrujada de minha cabeça resolveu girar.
Vou até voltar uma canção. É uma daquelas que se ouve repetidas vezes, sempre e sempre. Romina é que costumava fazê-lo: toda vez que terminava a tal música, apertava o botão de retorno de faixa. E uma e duas e três e tantas e tantas, até chegar na casa de praia. Ela usando aqueles óculos estilo retrô - desses que estão na moda, e que por isso não o comprei para mim, de birra mesmo - e os cabelos a se rebelarem com o vento que invadia o carro pela janela escancarada.
Una canción me trajo hasta aquí. E foi mesmo. Não me recordo das outras músicas do disco. Aliás, do CD. Digo disco, mesmo, por mais que me encham o saco dizendo-me que tenho espírito de velho-nostálgico-colecionador-de-vinis. A palavra disco soa bem melhor que este C junto ao D: cedê...
Romina me faz falta nestas noites sem nuvens. Deve estar descansando de tanta aula dada naquele frio das planícies do sul distante. Disse que se mudou para perto de uma lagoa que fica num canto bem verde daquela cidade. E eu aqui a reclamar do tempo seco e de meus lábios ressecados, feridos. Una canción me trajo hasta aquí.
Vou até voltar uma canção. É uma daquelas que se ouve repetidas vezes, sempre e sempre. Romina é que costumava fazê-lo: toda vez que terminava a tal música, apertava o botão de retorno de faixa. E uma e duas e três e tantas e tantas, até chegar na casa de praia. Ela usando aqueles óculos estilo retrô - desses que estão na moda, e que por isso não o comprei para mim, de birra mesmo - e os cabelos a se rebelarem com o vento que invadia o carro pela janela escancarada.
Una canción me trajo hasta aquí. E foi mesmo. Não me recordo das outras músicas do disco. Aliás, do CD. Digo disco, mesmo, por mais que me encham o saco dizendo-me que tenho espírito de velho-nostálgico-colecionador-de-vinis. A palavra disco soa bem melhor que este C junto ao D: cedê...
Romina me faz falta nestas noites sem nuvens. Deve estar descansando de tanta aula dada naquele frio das planícies do sul distante. Disse que se mudou para perto de uma lagoa que fica num canto bem verde daquela cidade. E eu aqui a reclamar do tempo seco e de meus lábios ressecados, feridos. Una canción me trajo hasta aquí.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
luar/solar
Eis que quando cai a noite
desdigo o dia que não me clareou.
E que mesmo que ressurja
com o mesmo sol e o mesmo céu,
retornará a mesma noite
com a mesma lua e o mesmo breu,
para logo dar sequência ao segundo dia da semana
e depois a noite, a lua, o breu, o dia, o sol, o céu...
Para sempre,
até quando eu durar.
desdigo o dia que não me clareou.
E que mesmo que ressurja
com o mesmo sol e o mesmo céu,
retornará a mesma noite
com a mesma lua e o mesmo breu,
para logo dar sequência ao segundo dia da semana
e depois a noite, a lua, o breu, o dia, o sol, o céu...
Para sempre,
até quando eu durar.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Ouvires
Uma vez o vi tocando sua flauta, sentado num galho de uma cortiça. Pedi-lhe uma história, uma história sua, que tenha vivido. Parou de tocar aquela melodia doce. Coçou sua cabeça protegida por uma dessas tocas feitas de lã de lhama e me disse que "essa é um tipo de história difícil, imprecisa, excessivamente incoerente..."
Desde então persisto como porta-voz da incoerência.
Desde então persisto como porta-voz da incoerência.
domingo, 25 de julho de 2010
Sonho
A verdade é que eu sempre quis contar as flores e as borboletas que havia nos cabelos dela. Aquele emaranhado de cachos inundados de um doce perfume de jasmins e margaridas.
Vasta cabeleira que ainda me facina. Quem me dera voltar a este sonho tranquilo que tive há pouco, em que a via correr por entre árvores e cipós de uma mata verde, amarela, vermelha, azul e de tantas cores ainda não catalogadas ou mesmo sonhadas por outrem. Mas havia tanto branco! O branco de um sorriso sincero, pueril.
E as flores lhe caíam dos cabelos, a toda hora, sempre e sempre, e não parava. Como poderiam existir tantas flores a cair? Sua cabeça era uma primavera infinita. Era isso. E quando virou-se e veio ter a mim, parou seus lábios próximos aos meus e falou... Não consegui ouvir ou mesmo entender. Foi então que abri os olhos e me pus aqui a relembrar.
Vasta cabeleira que ainda me facina. Quem me dera voltar a este sonho tranquilo que tive há pouco, em que a via correr por entre árvores e cipós de uma mata verde, amarela, vermelha, azul e de tantas cores ainda não catalogadas ou mesmo sonhadas por outrem. Mas havia tanto branco! O branco de um sorriso sincero, pueril.
E as flores lhe caíam dos cabelos, a toda hora, sempre e sempre, e não parava. Como poderiam existir tantas flores a cair? Sua cabeça era uma primavera infinita. Era isso. E quando virou-se e veio ter a mim, parou seus lábios próximos aos meus e falou... Não consegui ouvir ou mesmo entender. Foi então que abri os olhos e me pus aqui a relembrar.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Vagar
Lá vai o homem, seguindo a cambalear pela rua margeada por muitas portas. Trôpego, não percebe a vastidão de olhos que brilham a lhe enxergar. Ele não consegue andar em reta, vê-se; e seus olhos não piscam. Talvez, é verdade, a piscadela lhe faça tombar de uma vez, pois que será esse seu desfecho: beijar o chão imundo.
A cada passo, algo lhe cai: foram-se o chapéu, o bigode e as orelhas. Os cães, obsequisos, agradeceram-lhe os mimos. Mas ele luta e reluta, tentando coordenar as pernas rebeldes. Eis que tropeça. E levanta. Tropeça... Levantou-se com mais dificuldade dessa vez. Caiu. Meteu a cara no paralelepipedo da rua torta. Como que vencido, tenta mirar algum vencedor. Percebe um par de olhos a flutuar na escuridão de uma sacada. Surgem outros pares de olhos profundos. Ele não resiste, sequer tenciona, e cerra os olhos abraçando uma escuridão que não aquela que olhou e que lhe testemunhou. A escuridão que tranquiliza e que sempre amanhece.
A cada passo, algo lhe cai: foram-se o chapéu, o bigode e as orelhas. Os cães, obsequisos, agradeceram-lhe os mimos. Mas ele luta e reluta, tentando coordenar as pernas rebeldes. Eis que tropeça. E levanta. Tropeça... Levantou-se com mais dificuldade dessa vez. Caiu. Meteu a cara no paralelepipedo da rua torta. Como que vencido, tenta mirar algum vencedor. Percebe um par de olhos a flutuar na escuridão de uma sacada. Surgem outros pares de olhos profundos. Ele não resiste, sequer tenciona, e cerra os olhos abraçando uma escuridão que não aquela que olhou e que lhe testemunhou. A escuridão que tranquiliza e que sempre amanhece.
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