Eis que quando cai a noite
desdigo o dia que não me clareou.
E que mesmo que ressurja
com o mesmo sol e o mesmo céu,
retornará a mesma noite
com a mesma lua e o mesmo breu,
para logo dar sequência ao segundo dia da semana
e depois a noite, a lua, o breu, o dia, o sol, o céu...
Para sempre,
até quando eu durar.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Ouvires
Uma vez o vi tocando sua flauta, sentado num galho de uma cortiça. Pedi-lhe uma história, uma história sua, que tenha vivido. Parou de tocar aquela melodia doce. Coçou sua cabeça protegida por uma dessas tocas feitas de lã de lhama e me disse que "essa é um tipo de história difícil, imprecisa, excessivamente incoerente..."
Desde então persisto como porta-voz da incoerência.
Desde então persisto como porta-voz da incoerência.
domingo, 25 de julho de 2010
Sonho
A verdade é que eu sempre quis contar as flores e as borboletas que havia nos cabelos dela. Aquele emaranhado de cachos inundados de um doce perfume de jasmins e margaridas.
Vasta cabeleira que ainda me facina. Quem me dera voltar a este sonho tranquilo que tive há pouco, em que a via correr por entre árvores e cipós de uma mata verde, amarela, vermelha, azul e de tantas cores ainda não catalogadas ou mesmo sonhadas por outrem. Mas havia tanto branco! O branco de um sorriso sincero, pueril.
E as flores lhe caíam dos cabelos, a toda hora, sempre e sempre, e não parava. Como poderiam existir tantas flores a cair? Sua cabeça era uma primavera infinita. Era isso. E quando virou-se e veio ter a mim, parou seus lábios próximos aos meus e falou... Não consegui ouvir ou mesmo entender. Foi então que abri os olhos e me pus aqui a relembrar.
Vasta cabeleira que ainda me facina. Quem me dera voltar a este sonho tranquilo que tive há pouco, em que a via correr por entre árvores e cipós de uma mata verde, amarela, vermelha, azul e de tantas cores ainda não catalogadas ou mesmo sonhadas por outrem. Mas havia tanto branco! O branco de um sorriso sincero, pueril.
E as flores lhe caíam dos cabelos, a toda hora, sempre e sempre, e não parava. Como poderiam existir tantas flores a cair? Sua cabeça era uma primavera infinita. Era isso. E quando virou-se e veio ter a mim, parou seus lábios próximos aos meus e falou... Não consegui ouvir ou mesmo entender. Foi então que abri os olhos e me pus aqui a relembrar.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Vagar
Lá vai o homem, seguindo a cambalear pela rua margeada por muitas portas. Trôpego, não percebe a vastidão de olhos que brilham a lhe enxergar. Ele não consegue andar em reta, vê-se; e seus olhos não piscam. Talvez, é verdade, a piscadela lhe faça tombar de uma vez, pois que será esse seu desfecho: beijar o chão imundo.
A cada passo, algo lhe cai: foram-se o chapéu, o bigode e as orelhas. Os cães, obsequisos, agradeceram-lhe os mimos. Mas ele luta e reluta, tentando coordenar as pernas rebeldes. Eis que tropeça. E levanta. Tropeça... Levantou-se com mais dificuldade dessa vez. Caiu. Meteu a cara no paralelepipedo da rua torta. Como que vencido, tenta mirar algum vencedor. Percebe um par de olhos a flutuar na escuridão de uma sacada. Surgem outros pares de olhos profundos. Ele não resiste, sequer tenciona, e cerra os olhos abraçando uma escuridão que não aquela que olhou e que lhe testemunhou. A escuridão que tranquiliza e que sempre amanhece.
A cada passo, algo lhe cai: foram-se o chapéu, o bigode e as orelhas. Os cães, obsequisos, agradeceram-lhe os mimos. Mas ele luta e reluta, tentando coordenar as pernas rebeldes. Eis que tropeça. E levanta. Tropeça... Levantou-se com mais dificuldade dessa vez. Caiu. Meteu a cara no paralelepipedo da rua torta. Como que vencido, tenta mirar algum vencedor. Percebe um par de olhos a flutuar na escuridão de uma sacada. Surgem outros pares de olhos profundos. Ele não resiste, sequer tenciona, e cerra os olhos abraçando uma escuridão que não aquela que olhou e que lhe testemunhou. A escuridão que tranquiliza e que sempre amanhece.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Para além
privado de tantos bienes
y perdido en tierra ajena,
parece que se encadena
el tiempo y que no pasara,
como si el sol se parara
a contemplar tanta pena
El Martin Fierro - José Hernandez
E o sol persistia a não se mover. Talvez porque ele não queria. Queria, sim, pelo visto, queimar a nuca daquele pobre diabo em cima de um também infeliz cavalo que, preto, sofria ainda mais aquela ardência. Aquele cavalo mal imagina o que está por vir, se é que esses quadrúpedes podem conjeturar futuros, ainda que bem próximos; se é que conseguem, também, pensar o fato de ter um homem montado em seu lombo com desejo tão belicoso.
A guerra está além daquela colina. Está lá o que virá a ser um agora, mas que é depois, nesse momento. E o tempo...
O sol está realmente decidido a permanecer intacto. Não se pode esperar outra coisa, talvez nem mesmo a lua e as estrelas. O sol ouve os tantos cascos a marchar por essa planície sem fim, ainda que haja esse morrinho perdido, exilado. Com certeza essa bola incandescente torrará os corpos que se estirarão no outro lado do morro, mas antes os ânimos, os medos, as vontades e tudo que vier sentir ou pensar todas aquelas cabeças de homens, fadados ao calor, qualquer que seja.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Café
O que mais me atrai em Romina? Os olhos. Na verdade, seus olhos fechados enquanto sorri aquele sorriso branquinho com os dentes bem juntinhos.
Não sei como, mas sempre a encontro naquela cafeteria que desce Corrientes. Desta vez trouxe-me aquela velha edição de "Coração das Trevas", da tão antiga - e tão imensa - biblioteca de seu avô, velho gaúcho da llanura sem fim - do mesmo tamanho do sertão de meu avô, bem mais ao norte dali, o outro sem-fim. Infindo poderia ser também o seu sorriso.
"O horror! O horror!" é sempre o que proclamo quando conversamos sobre o livro que saiu de sua bolsa. Disse-me que abriu um bom debate sobre a obra em sua classe. E sorveu mais um pouco do café em sua xícara, levantando-a com as duas mãos, daquele jetinho dela.
Empolguei-me numa análise cheia de gestos e reticências sobre as trevas apresentadas no livro... Ela levantou as sombrancelhas como que impressionada - ou como que prendendo o riso - com aquela figura loquaz à sua frente. "Você podia ter ido à aula para entrar no debate. Teria sido bacana." E eu só prestei atenção no seu sotaque. Lindo, lindo. Mas que sotaque bonito é o dessa porteña.
Não sei como, mas sempre a encontro naquela cafeteria que desce Corrientes. Desta vez trouxe-me aquela velha edição de "Coração das Trevas", da tão antiga - e tão imensa - biblioteca de seu avô, velho gaúcho da llanura sem fim - do mesmo tamanho do sertão de meu avô, bem mais ao norte dali, o outro sem-fim. Infindo poderia ser também o seu sorriso.
"O horror! O horror!" é sempre o que proclamo quando conversamos sobre o livro que saiu de sua bolsa. Disse-me que abriu um bom debate sobre a obra em sua classe. E sorveu mais um pouco do café em sua xícara, levantando-a com as duas mãos, daquele jetinho dela.
Empolguei-me numa análise cheia de gestos e reticências sobre as trevas apresentadas no livro... Ela levantou as sombrancelhas como que impressionada - ou como que prendendo o riso - com aquela figura loquaz à sua frente. "Você podia ter ido à aula para entrar no debate. Teria sido bacana." E eu só prestei atenção no seu sotaque. Lindo, lindo. Mas que sotaque bonito é o dessa porteña.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Noite pequena
O pequeno rapaz-de-óculos descobriu a maior das descobertas: descobriu-se em suas pequenas profundezas com pretensões de infinito (pretensões). Descobriu a noite mais negra, mais que aquela que vem todos os dias, após o azul de sempre. Encontrou a noite pequenina dentro de si, bem pequenina, mesmo, porém mais escura que qualquer coisa ou noite escura, como antes dito.
E andando foi o pequeno rapaz, com seus óculos óculos de lentes grossas, a perambular pela sua noite particular - a noite era dele, ora! Andou. E andou em círculos. Foram várias voltas em pouco tempo de caminhada, pois suas reentrâncias noturnas eram tão pequenas quanto ele próprio - ou será que aquela noite, no final das contas, era ele próprio?
Foi então que ele sentou no próprio preto. Tentou pensar em qualquer coisa, hipótese, solução... Tinha o queixo apoiado na mão e um olhar triste, tritinho. Acabou pensando em chorar. E chorou. Chorou frio e chorou mudo. Chorou tanto que aquela sua noite choveu. E a chuva choveu, como era de se esperar. O rapaz ficou todo molhado, coitado. Saiu da sua noite para a noite de todos, a de sempre, a de depois do azul de sempre, aonde ninguem entendia aquela água toda, apenas ele.
E andando foi o pequeno rapaz, com seus óculos óculos de lentes grossas, a perambular pela sua noite particular - a noite era dele, ora! Andou. E andou em círculos. Foram várias voltas em pouco tempo de caminhada, pois suas reentrâncias noturnas eram tão pequenas quanto ele próprio - ou será que aquela noite, no final das contas, era ele próprio?
Foi então que ele sentou no próprio preto. Tentou pensar em qualquer coisa, hipótese, solução... Tinha o queixo apoiado na mão e um olhar triste, tritinho. Acabou pensando em chorar. E chorou. Chorou frio e chorou mudo. Chorou tanto que aquela sua noite choveu. E a chuva choveu, como era de se esperar. O rapaz ficou todo molhado, coitado. Saiu da sua noite para a noite de todos, a de sempre, a de depois do azul de sempre, aonde ninguem entendia aquela água toda, apenas ele.
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